
Na nossa primeira semana aqui, um grande mistério se apresentou pra nós e nos ocupou durante vários dias: o que o pessoal do andar de cima está fazendo pra produzir esse barulho todo? Era engraçado demais... quando a gente ia se deitar pra dormir, ficávamos os dois olhando pro teto, tentando decifrar a origem daquelas pancadas. Eu me lembro do Wal dizendo "será que eles estão jogando hockey lá em cima?" Gente, sem exagero, o globo de luz tremia e a gente ficava sem saber se saía correndo do quarto considerando a hipótese do teto cair sobre nós. Durante esses dias, era comum eu acordar durante a noite pensando que alguém tivesse entrado na nossa casa. Parecia que o barulho vinha de dentro do nosso apartamento. Esperamos duas semanas antes de fazer qualquer coisa a respeito disso, pensando que talvez a suposta família do andar de cima acabava de se mudar e estava colocando os móveis no lugar. Tudo bem que as construções aqui no Canadá não ajudam muito no quesito isolamento acústico, mas o problema não era esse... eram mesmo os vizinhos.
Até então, a gente ainda não havia decifrado a origem dos barulhos infernais nem fazia ideia de quantas pessoas moravam no tal apartamento do andar de cima. Foi quando começamos a coletar algumas evidências e chegamos à conclusão de que se tratava de uma mulher e seus dois filhos de aproximadamente sete anos de idade que ficavam acordados até altas horas da madruga brincando de pular pelo quarto (acreditamos que seja este o cômodo no andar de cima que coincide com nosso quarto). Até que chegou um dia em que a coisa toda ultrapassou todos os limites possíveis e eu disse pro Wal "vamos lá em cima agora". Observação: eram três horas da manhã e os moleques estavam no auge da sua agitação, a qual havia começado às onze e meia! De pijama e irritação nível máximo, batemos na porta da vizinha. Lá de dentro, lembrando, às 3 da manhã, ela grita "Qui eeeest-ce?" e eu respondo "C'est votre voisine". Na mesma hora, antes da porta ser aberta, ela grita pros filhos "Arrêteeeeez!". Outra mulher abre a porta e a gente, educadamente, pede que ela peça às crianças pra fazerem menos barulho porque a gente não estava conseguindo dormir. Miraculosamente, reina o silêncio. Por menos de um dia, porque, no dia seguinte, começou tudo de novo.
Estamos aqui neste apartamento há mais de um mês e até agora só vemos o inventário de barulhos da vizinha aumentar: além da música alta (um kuduro que se repete incansavelmente) que ela escuta não importa a que hora do dia ou da noite, as crianças, que achávamos que eram duas e vimos que são quatro (as outras duas, acreditamos, são filhos da outra mulher que abriu a porta pra nós e que muito provavelmente mora no prédio também), fazem absolutamente tudo que querem, na hora que querem e gritam muito, o que é completamente compreensível, já que a mãe deles só conversa com eles gritando. Outro dia, a vi jogando dois sacos de lixo pela sacada dela (ela mora no segundo andar), que fica, naturalmente, logo acima da nossa. Estamos nós aqui na sala quando, de repente, boom! Era a mulher arremessando os tais sacos gigantes de lixo lá de cima. Mas o dia em que eu realmente fiquei passada foi quando eu vi a outra mulher (a gente nem sabe mais quem é quem, porque elas são bem parecidas) buscar os dois filhos pelo braço, gritando com uma colher de pau na mão na ruelazinha que existe nos fundos do nosso prédio. Detalhe: assisti da nossa sacada à mulher batendo nos filhos com a colher de pau enquanto ela gritava e os meninos se esgoelavam numa choradeira só. Na noite da sexta-feira passada, véspera da minha prova seletiva pra entrar curso de Tradução da UdeM (daqui a duas ou três semanas fico sabendo se passei), o barulho excedeu todos os limites novamente (o barulho é sempre excedente, mas tem hora que não dá pra ignorar) e o Wal foi lá em cima falar com a mulher. Era uma e meia da manhã e a gente já estava tentando pegar no sono há um tempão. O Wal foi lá e disse "Arrête! No more, ok?" E a mulher "Oui, oui". E o Wal "ok???", e a mulher "Oui, merci!" rs rs rs. Foi muito engraçado ouvir o Wal contar como foi a coisa toda... ele disse assim "Desta vez a mulher até merci falou" rs rs rs. Detalhe (essa história é cheia de detalhes): neste mesmo dia, à tarde, quando o Wal se encontrou com o proprietário do prédio pra pagar o aluguel do mês de agosto, ele já havia feito uma reclamação sobre a vizinha, tendo em vista que a coisa estava fora de controle há muito tempo. O proprietário disse "ah, essa mulher... ela já deu muito trabalho, muita gente já reclamou..." e ficou de tomar providências. Ahã... Eu disse pro Wal que, dependendo de como a coisa continuar (e tem continuado), nós vamos ligar pro proprietário e dizer a ele que, se ele não fizer nada, nós vamos ligar na casa dele a cada vez que a vizinha estiver fazendo barulhos e cia, o que geralmente começa a acontecer após as onze da noite. Talvez assim ele tome alguma providência.
B.
Ps. Fica a dica: quando for alugar um apartamento, pergunte ao morador que está saindo se ele tem algum vizinho problemático.





















































