sábado, 24 de maio de 2008

As sintomáticas filas de espera

Uma das coisas que me incomodam muito aqui no Brasil é a falta de educação, gentileza e senso de coletividade da maioria das pessoas. Esse é um assunto complicado de se discutir, tendo em vista que há milhares de aspectos a serem analisados no que diz respeito aos hábitos coletivos de um povo. Entretanto, meu objetivo não é avaliar as causas desses comportamentos, mas as atitudes resultantes deles.

Jogar lixo no chão, fazer mau uso do patrimônio público, desrespeitar leis (das mais simples às mais complexas), atravessar as ruas fora da faixa para encurtar caminhos, xingar no trânsito e furar filas estão entre as atitudes cotidianas que, talvez, melhor caracterizem a "cultura da vantagem" brasileira no seu estado mais bruto, a qual se tornou um câncer que parece ser incombatível.

Esperar um ônibus aqui em Uberlândia é assistir à clássica cena em que as pessoas fingem formar uma fila, o que chega a ser hilário para não dizer desesperador... a tal da fila na verdade são quatro (ou cinco, ou seis...), porque o que se forma é um "bolo" de pessoas. Pode até ser que inicialmente se tenha algo próximo de uma fila, mas é só o ônibus chegar para, curiosamente, aquele "bolo" aparecer... é nesse momento que as pessoas começam a avançar em direção ao veículo e a se debater na tentativa de serem as primeiras a adentrá-lo, enquanto as que precisam descer do ônibus tentam procurar um espaço (geralmente ínfimo) para, ao menos, posicionarem os pés no chão e depois se desembolarem da multidão num movimento de choque contínuo de ombros, bolsas, sacolas.

Se formos analisar a cena mais meticulosamente, seremos capazes de observar que ali se encontra a barbárie em seu estado mais contemporâneo. Trata-se de uma "simples" cena cotidiana que se assemelharia a um combate armado. Parecem dois exércitos sem tática: o que tenta entrar no ônibus e o que tenta descer dele, sendo que em ambos se verifica uma guerra interna. Do grupo dos que precisam entrar no ônibus, há os que querem entrar primeiro e, por isso, se acotovelam, trocam "bolsadas", empurrões, impropérios; do grupo dos que querem descer do ônibus, há os que querem descer primeiro, porque estão sempre apressados e, assim, tentam atravessar o outro grupo acotovelando-lhe, dando-lhe empurrões... Resultado? A rotina do passageiro se torna desgastante, os roubos são facilitados (foi num desses "bolos" que surrupiaram meu celular no início do ano sem que eu me desse conta disso...) os atrasos e o estresse são maiores PARA TODOS.

Já no Canadá... mais especificamente em Montréal, isso tudo é muuito diferente. Tivemos um choque cultural na primeira vez em que fizemos parte de uma fila de espera por um ônibus na cidade. Primeiramente, as pessoas sabem o que é uma fila indiana e, curiosamente, enquanto o ônibus não chega, elas se posicionam lateralmente na fila e só se dão as costas quando ele chega. Ninguém entra no veículo enquanto todos os que estão dentro dele não tenham descido. Em seguida, uma a uma, as pessoas entram no ônibus calmamente e, da mesma forma, escolhem o lugar em que vão se sentar. Aqui eu abro um parênteses: o assento para idosos é destinado a idosos, assim como o assento para obesos é para obesos (o que, no Brasil, não é respeitado).

Certa vez, estávamos na estação Angrignon à espera do ônibus dentro do abrigo que existe em frente ao ponto (era inverno e estava fazendo muuuito frio). Já havia algumas pessoas que aguardavam na fila, e eu disse pro Wal que eu preferia ficar no abrigo e depois entrar no final da fila a esperar naquele frio. Quando o ônibus chegou, a pessoa que entrou na fila depois que chegamos, um senhor, nos viu indo em direção ao final dela e me disse que nós deveríamos entrar na frente dele porque nós havíamos chegado antes dele... eu disse a ele que aquilo não fazia sentido, já que estávamos confortáveis no abrigo enquanto ele esteve em pé no frio durante todo o tempo e que, por isso, ele deveria entrar primeiro. Surpreendentemente, ele insistiu que nós devíamos entrar antes dele... aceitamos a gentileza dele e lhe agradecemos, estupefatos! Essa é uma cena que depois se mostrou comum a nós, pois a vimos acontecer diversas vezes em contextos diferentes.

Nas escadas rolantes em Montréal, também há um sistema de posicionamento das pessoas que, à primeira vista, não entendemos, mas depois nos explicaram como ele funciona. Se você quer ficar parado e esperar que a escada te leve ao topo, você deve se posicionar à direita, pois à esquerda vão passar as pessoas que não querem esperar até que a escada as conduza ao topo. E todos respeitam isso!

Aí está: se ao invés de agirmos em benefício próprio agíssemos coletivamente, TODOS se beneficiariam... e é justamente esse pensamento de que "se EU facilitar as coisas pra mim, EU vou viver melhor e ter mais" que define e alimenta a tal "cultura da vantagem" no Brasil, a qual segue se estendendo aos setores mais diversos, nas intensidades mais variadas.

Fica a reflexão...

B.

2 comentários:

Nós! disse...

Oi, Bárbara, obrigada pelas dicas de transportadoras! Anotei todas elas! Em que estágio do processo vocês estão?

joana disse...

Ops, o comentário aí de cima foi meu =)